Disputado, pedreiro até recebe para ficar em casa

17/03/2010

 

Disputado, pedreiro até recebe para ficar em casa
 
 
Para 'fidelizar' empregados, contrutoras levam conforto e benefícios ao canteiro de obras
 
Janaína Oliveira - Repórter - 16/03/2010 - 20:49
 
Carlos Roberto
Mimo no canteiro de obras: construtora oferece toalha esterilizada na hora do banho
Plano de saúde para a família, seguro de vida, cursos de alfabetização e de aperfeiçoamento, convênio com clube de lazer, toalha limpa para o banho no fim do expediente e até salário para ficar em casa enquanto o novo edifício não começa a ser erguido. Benefícios que passaram a ser incorporados à rotina de quem ganha a vida no canteiro de obras. Com a falta de pessoal qualificado para tocar seus empreendimentos, em um mercado em franca expansão, construtoras lançam mão das mais diversas estratégias para “fidelizar” seu empregado e impedir que ele vá jogar no time da concorrência. 
 
“A mão de obra virou um problema para o setor da construção civil. Tanto que há casos de construtoras que mantêm o trabalhador em casa, recebendo salário, entre o fim de uma obra até o início de um novo empreendimento”, afirma a coordenadora do curso de MBA em Gestão Estratégia de Pessoas da UNA, professora Joseli Laviola, que presta consultoria na área de construção civil e pesada. Segundo ela, a estratégia já está sendo utilizada por empresas de porte médio e grande. “Para não perder o empregado, elas preferem pagar o salário mesmo sem que o funcionário esteja trabalhando”, diz. 
De acordo com o vice-presidente de Política, Relações Trabalhistas e Recursos Humanos do Sindicato da Indústria da Construção Civil de Minas Gerais (Sinduscon-MG), Bruno Vinícius Magalhães, a recuperação do setor, a explosão no número de obras e programas do Governo federal como Minha Casa, Minha Vida exigiram mais pedreiros, serventes, mestres de obra, topógrafos e engenheiros. Além da superdemanda, o setor esbarra no problema da qualificação do pessoal.
 “O sindicato não tem conhecimento das práticas individuais de cada empresa. Mas reconhecemos que muitas estratégias estão sendo adotadas. Um saída, por exemplo, tem sido alocar um funcionário em outra função”, pontua. Assim, um pedreiro de acabamento que termina o seu serviço, por exemplo, passa a ocupar o cargo de pedreiro de alvenaria ou de massa. Porém, ganhando o salário mais alto, correspondente à função anterior. Ainda de acordo com Magalhães, até abril o Sinduscon-MG abrirá turmas para formação de 500 operários.
 As salas de aula também foram uma alternativa adotada pela Construtora Átrium. Segundo o coordenador de Recursos Humanos da empresa, Paulo Henrique Faleiro, uma parceria foi firmada com o Instituto Tecnológico da Construção Civil (Itec) e com o Cefet-MG para fazer de engenheiros já formados professores de pedreiros.
 “Será um aprimoramento para que o funcionário aprenda mais e possa seguir carreira dentro da companhia”, explica. Outra atitude tomada para “segurar” a mão de obra foi a instituição de benefícios como plano de saúde. “Hoje, todos os funcionários têm cobertura completa, pagando apenas R$ 3 mensais. E em breve vamos estender o benefício para toda a família”, antecipa. Neste caso, o custo será pago pelos empregados.
“Também já está em vigor um convênio como o Sesi em Betim, local que hoje podem frequentar nas horas de lazer”, descreve ele, que cuidou da contratação de 35 profissionais há poucos dias. Atualmente, o quadro é composto por 340 trabalhadores, muito mais que os 150 nessa mesma época no ano passado.
Alexandre Soares, vice-presidente da Habitare, também revela que, para dar conta do recado, a empresa teve que contratar mais. Em janeiro de 2010, a construtora somava 2 mil trabalhadores. No mesmo mês de 2009, eles eram metade disso. “A necessidade é grande e urgente, de servente até engenheiros”, afirma. Uma arma para não deixar o empregado mudar de endereço foi instituir plano de saúde para o trabalhador e sua família.
Outra ação foi introduzir o ganho de produtividade, que pode chegar a 20% do salário. E os novatos ganham para estudar. “Durante 15 dias, eles recebem enquanto estudam. O objetivo é formar pessoas com a cara da empresa, sem vícios”, diz. Por enquanto, estão em andamento duas turmas, de 40 alunos cada. Em seis meses, a previsão é que 400 “estudantes” sejam formados. Os trabalhadores da Habitare ainda contam com seguro de vida, convênio farmácia e cesta básica.
Na Even Construtora e Incorporadora, a ideia para “conquistar” a mão de obra foi parar debaixo do chuveiro. “Quando o trabalhador bate o cartão para ir embora, ele entrega o crachá e recebe uma toalha limpa, esterilizada e embrulhada em um plástico, assim como acontece nos salões de beleza. Então ele toma o seu banho sem pressa e, quando termina, devolve a toalha e pega o seu crachá de volta”, descreve a gerente administrativa da Even, Mairla Gomes Vieira. A iniciativa, segundo ela, resultou em produtividade e motivação.
O servente Reginaldo Gabriel dos Santos, 32 anos, conta que a “solução” adotada pela Even ajudou até no seu relacionamento amoroso. “Posso sair do trabalho e ir direto encontrar a namorada. Também acabou aquela história de a gente pegar a lotação cheirando a macaco, como diz o ditado. Já saímos da empresa beleza, bem cheirosos”, descreve ele, que deixou a Bahia há nove meses para trabalhar na construção civil em Minas.


Autor: Janaína Oliveira - Repórter - 16/03/2010 - 20:49
Fonte: http://www.hojeemdia.com.br/cmlink/hoje-em-dia/noticias
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